Um olhar sobre outro olhar Interpretar uma imagem, um som, um texto, é uma tarefa habitual de públicos, artistas e críticos. Neste caso, uma tentativa de esboçar uma apresentação duma exposição, feita por um leigo, como é o meu caso, trata-se de um perigoso exercício de equilíbrio entre estas três entidades. No entanto, ao atrever-me a discorrer brevemente sobre este outro exercício, que Virginie Duhamel aqui apresenta, trago-vos uma interpretação minha sobre aquilo que penso-sinto sobre este trabalho. A fotografia é entendida aqui como uma forma de pensar-sentir um mundo, uma construção abstracta de um olhar. Não estamos perante representações directas e fiéis de um mundo, aparentando a inocência nos olhos por detrás das objectivas. Estamos perante um olhar que constrói uma imagem, um conceito, uma linguagem. Desta vez Virginie Duhamel escolheu formas circulares, arredondadas, flexíveis... pregas que cedem ao nosso peso, como diria Agustina. Esta reflexão uterina, que esboça ou sugere espaços oníricos, repletos de cores e reflexos parece remeter para o domínio de um mundo nocturno, lunar... onde fantasmáticas figuras podem surgir para nos encantar... ou assombrar... É, no entanto, com desassombro, que Virginie Duhamel nos guia por essa recriação de interstícios entre um sonho e outro, permitindo ao observador, sonhar os sonhos que ela sonhou. É como se de úteros se tratassem, onde em posição fetal, podemos deixar-nos adormecermos em líquidos amnióticos que embalam esse mesmos sonhos. A lasciva e o desejo também surgem nestas fotografias, dessacralizando o espaço uterino, relembrando a nossa condição de desejantes, com os vermelhos luxuriantes, os amarelos de ouro e os verdes quase venenosos que nos transportam para leitos imaginários, onde nos podemos entregar aos prazeres da carne e do espírito... a preguiça da contemplação e a concupiscência do olhar. Estas obras parecem trazer alguma inquietação, o rosto de menina no vermelho, submersa de cor. Uma inquietação também na abstracção das formas, da geometria impossível, fluida. Regressados dos úteros propostos para os nossos sonhos habitarem, fica-nos a pergunta. Será desta leveza e fluidez que os nossos sonhos são feitos? E Virginie Duhamel enigmática, responde com o título desta exposição:...Fuck your dreams, this is heaven! João Manuel de Oliveira Investigador/Estudos de Género "FUCK YOUR DREAMS, THIS IS HEAVEN"
A cor no rosto, nas figuras geométricas, nos vultos que aparecem por momentos, surge como ponte entre o sonho e a realidade, desrespeitando as convenções da reprodução da natureza. Infância sonhada e sublinhada entre o inconsciente e as lembranças numa projecção dos desejos não materializados. A memória é sempre difusa na cor e nela a realidade confunde-se com o desejo. Aqui a experiência vivida é exposta a partir da experiência imaginada. Há uma fotografia que sublinha o recorte psicológico, em busca da intimidade, daí o balançar entre um ambiente pesado, confrangedor como as cortinas fechadas duma cena de teatro e a leveza que talvez apareça simplesmente da memória selectiva dum certo bem-estar na nossa infância. Nestas cenas chega-se ao limite da inteligibilidade da realidade em que esta se obscurece diante da razão e só a imaginação lhe pode aceder numa deambulação no espaço. Espaço vazio, por vezes, nos corredores labirínticos; nos quais, tal como Alice, passando do outro lado do espelho, penetramos no mundo da ilusão e do sonho: Momentos oníricos, poéticos, de contemplação mascarando por esta reunião de cores puras e alucinantes a amargura da existência humana, desses ritmos inautênticos de vida. Mistério da criação como num ventre materno aconchegante e mágico. Inspirando-se no pensamento criador do Fellini: “a vitória do irracional sobre o racional, do oculto sobre o visível, do mistério sobre a ciência, do espírito sobre a matéria”.
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 Um olhar sobre outro olhar Interpretar uma imagem, um som, um texto, é uma tarefa habitual de públicos, artistas e críticos. Neste caso, uma tentativa de esboçar uma apresentação duma exposição, feita por um leigo, como é o meu caso, trata-se de um perigoso exercício de equilíbrio entre estas três entidades. No entanto, ao atrever-me a discorrer brevemente sobre este outro exercício, que Virginie Duhamel aqui apresenta, trago-vos uma interpretação minha sobre aquilo que penso-sinto sobre este trabalho. A fotografia é entendida aqui como uma forma de pensar-sentir um mundo, uma construção abstracta de um olhar. Não estamos perante representações directas e fiéis de um mundo, aparentando a inocência nos olhos por detrás das objectivas. Estamos perante um olhar que constrói uma imagem, um conceito, uma linguagem. Desta vez Virginie Duhamel escolheu formas circulares, arredondadas, flexíveis... pregas que cedem ao nosso peso, como diria Agustina. Esta reflexão uterina, que esboça ou sugere espaços oníricos, repletos de cores e reflexos parece remeter para o domínio de um mundo nocturno, lunar... onde fantasmáticas figuras podem surgir para nos encantar... ou assombrar... É, no entanto, com desassombro, que Virginie Duhamel nos guia por essa recriação de interstícios entre um sonho e outro, permitindo ao observador, sonhar os sonhos que ela sonhou. É como se de úteros se tratassem, onde em posição fetal, podemos deixar-nos adormecermos em líquidos amnióticos que embalam esse mesmos sonhos. A lasciva e o desejo também surgem nestas fotografias, dessacralizando o espaço uterino, relembrando a nossa condição de desejantes, com os vermelhos luxuriantes, os amarelos de ouro e os verdes quase venenosos que nos transportam para leitos imaginários, onde nos podemos entregar aos prazeres da carne e do espírito... a preguiça da contemplação e a concupiscência do olhar. Estas obras parecem trazer alguma inquietação, o rosto de menina no vermelho, submersa de cor. Uma inquietação também na abstracção das formas, da geometria impossível, fluida. Regressados dos úteros propostos para os nossos sonhos habitarem, fica-nos a pergunta. Será desta leveza e fluidez que os nossos sonhos são feitos? E Virginie Duhamel enigmática, responde com o título desta exposição:...Fuck your dreams, this is heaven! João Manuel de Oliveira Investigador/Estudos de Género "FUCK YOUR DREAMS, THIS IS HEAVEN"
A cor no rosto, nas figuras geométricas, nos vultos que aparecem por momentos, surge como ponte entre o sonho e a realidade, desrespeitando as convenções da reprodução da natureza. Infância sonhada e sublinhada entre o inconsciente e as lembranças numa projecção dos desejos não materializados. A memória é sempre difusa na cor e nela a realidade confunde-se com o desejo. Aqui a experiência vivida é exposta a partir da experiência imaginada. Há uma fotografia que sublinha o recorte psicológico, em busca da intimidade, daí o balançar entre um ambiente pesado, confrangedor como as cortinas fechadas duma cena de teatro e a leveza que talvez apareça simplesmente da memória selectiva dum certo bem-estar na nossa infância. Nestas cenas chega-se ao limite da inteligibilidade da realidade em que esta se obscurece diante da razão e só a imaginação lhe pode aceder numa deambulação no espaço. Espaço vazio, por vezes, nos corredores labirínticos; nos quais, tal como Alice, passando do outro lado do espelho, penetramos no mundo da ilusão e do sonho: Momentos oníricos, poéticos, de contemplação mascarando por esta reunião de cores puras e alucinantes a amargura da existência humana, desses ritmos inautênticos de vida. Mistério da criação como num ventre materno aconchegante e mágico. Inspirando-se no pensamento criador do Fellini: “a vitória do irracional sobre o racional, do oculto sobre o visível, do mistério sobre a ciência, do espírito sobre a matéria”.